Tomas De Aquino Filosofo Cristao Que Viveu - Santo Tomás de Aquino. O filósofo cristão da Idade Média {Grandes ...
Santo Tomás de Aquino. O filósofo cristão da Idade Média {Grandes ...

Quem foi Thomas Aquino e por que ainda discutimos isso

Thomas de Aquino nasceu por volta de 1225 no castelo de Roccasecca, na Itália, e morreu em 1274 na abadia de Fossanova. Foi um frei dominicano, teólogo e filósofo que passou a maior parte da vida adulta ensinando em Paris e em Roma. Sua obra mais conhecida é a Suma Teológica, um texto enorme que ele começou a escrever por volta de 1265 e nunca terminou porque morreu antes. Ele também deixou a Suma Contra os Gentios, os Commentaria sobre Aristóteles, e uma quantidade considerable de questões disputadas e comentários bíblicos que os estudiosos ainda leem hoje. O que torna Aquino diferente de outros escolásticos da época não é só a quantidade de texto que produziu. É a forma como ele pegou a filosofia aristotélica, que estava voltando para o Ocidente através de traduções árabes e bizantinas, e tentou mostrá-la como compatível com a teologia cristã. Isso era controverso na época. Muitos teólogos desconfiavam de Aristóteles. Eles achavam que a razão grega ia contra a fé. Aquino simplesmente disse que não ia. E construiu um sistema inteiro para provar isso.

tomás de aquino filósofo cristão que viveu: o contexto que ninguém menciona

Antes de falar dos cinco caminhos ou da lei natural, você precisa entender o que estava acontecendo no século XIII. As universidades acabavam de ser criadas. A Escola Palatina de Carlos Magno tinha virado pó havia séculos. O mundo intelectual ocidental estava sendo inundado por textos de Aristóteles que ninguém tinha visto antes. Havia os tratados de lógica, a Física, a Metafísica, a Ética a Nicômaco. Tudo isso chegou ao Latim através de tradutores como Gerard de Cremona e através de comentários de Averróis, que era um pensador árabe. Averróis dizia coisas como que a mente era uma só para todos os seres humanos. Isso assustou muita gente na Igreja. Aquino leu tudo isso. Ele não rejeitou. Ele absorveu. E aí começou o trabalho difícil, que é decidir o que aceitar e o que ajustar. Ele aceitou a ideia de que todo conhecimento começa pelos sentidos.aceitou a distinção aristotélica entre matéria e forma. Aceitou a ideia de ato e potência. Mas rejeitou o averroísmo. Rejeitou também a ideia de que o mundo era eterno. Para Aquino, o mundo teve um começo. A razão sozinha não consegue provar isso, então essa parte fica para a fé. Esse é um detalhe que muitos resumos simplificam demais.

Eu li a Suma Teológica inteiro pelo menos duas vezes, versão em latim, com notas. E a parte que sempre me choca não é a doutrina em si. É a estrutura. Aquino escreve como se estivesse tendo uma discussão ao vivo. Ele coloca uma objeção, depois outra, e depois outra. Cada uma bem formulada. Depois ele responde com um sed contra, geralmente citando autoridade bíblica ou de outro autor reconhecido. E só então vem a resposta dele, dividida em artigos, com subsolução para cada objeção. Isso não é um tratado seco. É uma arena argumentativa em forma de texto. Quando você lê sem perceber esse formato, perde metade do que ele está fazendo. Um problema prático que quase todo mundo encontra ao estudar Aquino é a questão dos cinco caminhos. As pessoas gostam de citá-los como se fossem argumentos científicos. Não são. São argumentos filosóficos dentro de um framework teológico. O primeiro caminho, o da mudança, depende de uma cadeia causal que não pode retroceder infinitamente. O segundo, da causa eficiente, funciona de forma parecida. O terceiro, da contingência, fala que coisas que podem não existir precisam ter alguém que as faça existir necessariamente. O quarto, dos graus de perfeição, usa a ideia de que qualidades como bom ou verdadeiro têm um máximo. O quinto, da governação das coisas, observa que até coisas sem inteligência agem com finalidade.

O que as pessoas esquecem é que Aquino mesmo disse que esses caminhos não provam Deus para quem não aceita certas premissas. Eles partem da experiência sensível. Se você não acha que o movimento ou a causalidade exigem um primeiro termo, os argumentos não funcionam. Isso não é fraqueza do sistema. É honestidade intelectual. E é também um ponto onde muitos defensores e críticos de Aquino erram. Os defensores tratam os caminhos como provas dedutivas. Os críticos tratam como se fossem hipóteses empiristas. Nenhum dos dois está certo. A lei natural é outro conceito que recebe tratamento distorcido com frequência. Para Aquino, a lei natural é a participação da criatura racional na lei eterna de Deus. Ela se reconhece pela razão e tem como primeiro preceito o bem a fazer e o mal a evitar. A partir disso, derivam-se inclinações mais específicas. Há a inclinação para preservar a vida, para reproduzir, para viver em sociedade, para buscar a verdade sobre Deus. Isso não significa que Aquino acreditava que toda regra moral podia ser deduzida automaticamente. Havia margem para a prudência, para a circunstância, para a avaliação prática.

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Eu já vi gente usar Aquino para justificar posições morais que ele nunca teria aceito. Por exemplo, a ideia de que a lei natural determina regras fixas e imutáveis para todas as situações concretas. Isso é uma leitura anacrônica. O próprio Aquino reconhecia que em casos específicos a aplicação prática depende do julgamento do agente. A teoria moral dele é mais flexível do que muitos queremar. Outro ponto que os manuais costumam omitir é a relação de Aquino com o direito canônico e com o pensamento político. Ele escreveu sobre a realeza e sobre a melhor forma de governo. Ele não era democrata no sentido moderno. Acheava que uma monarquia bem organizada era melhor do que outras formas, desde que o rei governasse pelo bem comum. Também escreveu sobre a relação entre poder temporal e poder eclesiástico, posição que depois seria usada de maneiras diferentes por facções opostas. A história das recepções de Aquino é quase tão longa quanto a própria obra dele.

Se você quer ler Aquino de forma direta, as edições latinhas mais confiáveis são as da Universidade de Notre Dame e as publicações da Brepols. Para quem prefere português, há traduções da Suma Teológica feitas no Brasil e em Portugal, mas a qualidade varia muito. Recomendo verificar se o tradutor indicou os manuscritos ou edições que usou. Traduções não críticas costumam cometer erros de terminologia técnica que mudam o sentido dos argumentos. A edição crítica padrão do Corpus Thomisticum está disponível online através do site do Pontifical Institute of Mediaeval Studies, em Ottawa. É gratuito e você consegue acessar os textos originais com facilidade. Se for estudar os cinco caminhos, vale ler o contexto inteiro do I parte, questões 2 e 1, e não apenas o artigo 3 isolado. O que vem antes e depois explica por que Aquino estruturou a demonstração daquela maneira.

Um erro comum ao começar a estudar Aquino é achar que ele é um sistemático fechado. Ele não é. A Suma Teológica foi escrita como material didático para alunos noviços em teologia. Tem repetições. Tem soluções que ele modificou depois. Tem contradições internas que estudiosos debatem há séculos. A diferença entre Aquino e um manual escolar é que Aquino mostra o processo de discussão, não apenas o resultado final. Se você quer entender o pensamento dele, precisa acompanhar as objeções também. Quanto à influência, ela é imensa. Cânone em 1879 pelo papa Leão XIII na carta Aeterni Patris. Tornou-se a base do tomismo e inspirou escolas inteiras de pensamento. Não apenas na teologia católica. Também na filosofia política, no direito, na ética aplicada. Pensadores como Francisco de Vitória, Suarez, Finnis, e até alguns filósofos analíticos contemporâneos dialogam com ele de formas variadas. O tomismo novo ou neotomismo foi muito influente no século XX, especialmente nos círculos acadêmicos anglo-americanos.

Há também controvérsias legítimas sobre certas partes da obra de Aquino. A postura sobre os judeus e muçulmanos, por exemplo, reflete o contexto medieval e inclui passagens difíceis de defender hoje. A visão sobre mulheres e hierarquia social segue padrões da época. Estudiosos sérios não ignoram isso. Eles leem criticamente e contextualizam. Tentar ler Aquino como se fosse moderno é ingênuo. Ignorar essas partes é pior. Se o seu objetivo é apenas entender o básico, comece pelos primeiros artigos da Suma Teológica, parte I, questão 2. Leia com uma boa edição comentada. Albert the Great foi seu professor e também vale a pena consultar. Os comentários de Aquino sobre a Física de Aristóteles mostram como ele aplicou o método em outras áreas. A questão sobre a verdade, na parte I, questão 16, é densa mas direta. A Etica a Nicômaco de Aristóteles, que Aquino comentou, ajuda a entender as fontes dele.

O legado de Thomas de Aquino não é algo que se resume a citações soltas. É um modo de fazer filosofia que tenta manter rigor racional sem abandonar pressupostos teológicos. Isso gera tensões que duram até hoje. As tensões não são defeito. São parte do método. Se você quer usar Aquino como ferramenta de análise, precisa aceitar que ele também era um homem do seu tempo, com limitações que não desaparecem só porque o sistema é coerente internamente.