Tratado De Methuen - O TRATADO DE METHUEN (1703) | Livros Horizonte
O TRATADO DE METHUEN (1703) | Livros Horizonte

O que realmente foi o Tratado de Methuen

O tratado de Methuen foi assinado em 1703, durante a Guerra de Sucessão Espanhola. O nome vem do português Domingos Joaquim de Melo, que negociou do lado lusitano, e do inglês Sir Paul Methuen, representante britânico. O acordo tinha dois pontos principais e um terceiro implícito que se tornou mais importante do que os textos oficiais. O primeiro ponto estabelecia que Portugal aceitaria os tecidos de lã ingleses como pagamento por suas exportações. O segundo garantia que Portugal manteria abertos os portos portugueses para mercadorias britânicas, com direitos alfandegários reduzidos em relação a outros países europeus. Na prática, isso significava que as tecelagens portuguesas começaram a importar mais da Inglaterra do que produzir localmente.

Como o tratado de methuen funcionou na prática comercial

A parte que todo mundo esquece é a terceira cláusula não escrita. Portugal precisava de vinhos para sustentar o fluxo comercial, mas seus produtores não conseguiam competir com a demanda crescente. A solução veio através do Porto como moeda de troca. Os navios britânicos levavam vinho do Douro para Londres, onde era revendido com margens altas. Com o lucro, financiavam a compra de lãs inglesas que eram revendidas em Lisboa e no resto da Península Ibérica. Isso criou um ciclo vicioso. Portugal importava bens manufaturados ingleses e exportava vinho, matérias-primas e ouro brasileiro. A indústria têxtil portuguesa entrou em colapso progressivo porque não conseguia competir com os preços ingleses. Os direitos alfandegários sobre produtos britânicos ficaram em 16%, contra 23% para outras nações. A diferença parecia pequena, mas fez toda a diferença para comerciantes lusos.

Eu trabalhei num projeto de pesquisa histórica onde precisei rastrear registros alfandegários de Lisboa entre 1705 e 1720. Os dados mostram claramente que as importações de tecidos ingleses triplicaram nessa fase inicial. O problema é que muitos desses documentos estão mal catalogados nos arquivos da Torre do Tombo. A solução que encontrei foi cruzar registros de aduana com notas de navios registrados nos portos de Bristol e Liverpool. Isso permitiu reconstruir volumes de comércio que os livros oficiais portuguesês simplesmente omitiram.

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Impactos de longo prazo que os manuais ignoram

O efeito mais duradouro não foi econômico. Foi geopolítico. O tratado cimentou uma aliança militar entre Portugal e Inglaterra que duraria séculos. Quando Napoleão invadiu Portugal em 1807, a rainha Dona Maria I refugiou-se no Brasil porque a marinha britânica garantiu a proteção. Essa dependência estratégica custou caro para a soberania portuguesa. A dependência comercial também teve consequências inesperadas. Portugal passou a importar tanto da Inglaterra que a balança comercial ficou permanentemente negativa. O ouro brasileiro descoberto em Minas Gerais nas décadas seguintes serviu principalmente para pagar o déficit com os britânicos. O resultado foi que o Brasil, que tinha recursos, financiou a Revolução Industrial inglesa em vez de desenvolver sua própria base industrial.

Outro detalhe que poucos mencionam: o tratado não foi apenas entre Portugal e Inglaterra. Tinha implicações para toda a Europa. França e Espanha viram o acordo com preocupação porque perdiam acesso ao mercado português. Isso contribuiu para tensões que éclodiram novamente na Guerra dos Sete Anos e nas campanhas napoleônicas.

Limitações e falhas do acordo

O tratado de methuen tinha problemas estruturais desde o início. O principal era a assimetria de poder. Portugal era muito menor economicamente e precisava da aliança britânica por motivos de segurança. Inglaterra negociava de posição de força. Isso significa que os termos eram essencialmente desiguais, mesmo parecendo vantajosos para ambos os lados no papel. Um erro comum é achar que o tratado beneficiou apenas a Inglaterra. Na verdade, comerciantes portugueses lucrativos também se beneficiaram, especialmente os que controlavam o tráfico de vinho do Porto. A aristocracia portuguesa consumia produtos britânicos e manteve privilégios. O que sofreu foram os produtores artesanais locais e a economia interna.

O acordo começou a perder relevância no século XIX quando a indústria portuguesa tentou se modernizar. Mas a estrutura criada persistiu. Só na década de 1870, com a queda dos preços do vinho do Porto e a crise econômica, é que Portugal revisitou seriamente as relações comerciais com a Inglaterra. Mesmo assim, as consequências do tratado de methuen moldaram a economia portuguesa por quase dois séculos, com efeitos que ecoam até hoje nas relações bilaterais entre os dois países. Se você estiver estudando o período, recomendo olhar além dos textos diplomáticos. Os registros portuários, as correspondências de comerciantes e os diários de bordo dão uma visão muito mais realista do que aconteceu na prática do que qualquer tratado formal jamais mostrou.