Ulisses James Joyce - Ulisses James Joyce
Ulisses James Joyce

Como abordar Ulysses na prática

Ulysses não é um livro que se lê de forma linear. A maioria das pessoas tenta, desiste na página 50 e nunca mais volta. Eu também já tinha desistido uma vez. Voltei depois, com outra abordagem, e consegui terminar sem sofrer tanto. O problema principal não é o conteúdo em si. É a structure. Joyce escreveram o romance inteiro inspirado no mito de Odisseu, mas transportado para Dublin, no dia 16 de junho de 1904. Cada capítulo corresponde a uma episódio da vida de Odisseu. Stephen Dedalus ocupa os dois primeiros capítulos. Leopold Bloom aparece a partir do terceiro. Molly Bloom fecha o livro com o famoso monólogo final.

ulisses james joyce: o que realmente se passa nesse livro

Muitos leitores esperam encontrar uma narrativa tradicional. Não há. Joyce brinca com o fluxo de consciência de maneira que ninguém fazia naquela época. Os personagens pensam em voz alta, em imagens fragmentadas, em associações livres. O estilo muda radicalmente de capítulo para capítulo. Um capítulo pode ser escrito inteiramente em forma de perguntas e respostas. Outro pode parecer um roteiro de teatro. O capítulo "Cyclops" introduz o Narrador Ambíguo, uma voz onipresente que comenta os eventos com ironia cruel e um vocabulário absurdamente inflationado. O que menos se percebe à primeira leitura é o nível de detalhe geográfico e histórico. Joyce mapeou Dublin com precisão cirúrgica. Ele conhece cada pub, cada rua, cada loja. Quando Bloom caminha pela cidade, a trajetória é real. Você pode seguir os passos dele hoje. Isso é ao mesmo tempo uma vantagem e uma dor de cabeça: a vantagem é que você tem um mapa concreto. A dor é que o mapa exige esforço para ser acompanhado.

Como eu fiz para conseguir terminar a leitura

Na minha primeira tentativa, li o texto sem nenhuma ajuda. Parei no capítulo "Lestrygonians" porque as descrições de comida começavam a me irritar. Voltei seis meses depois com um guia paralelo. Comprei o "Ulysses Annotated" de Don Gifford. Esse livro explica praticamente cada referência — nomes de ruas, marcas de cerveja, piadas locais, alusões a autores irlandeses. Com ele, o livro ficou 70% mais digerível. Diferente do que muitos dizem, não vale a pena ler as notas de rodapé em tempo real. Você perde o fio da narrativa. Eu descobri isso na marra, no capítulo "Wandering Rocks". Há mais de vinte personagens cruzando as ruas de Dublin simultaneamente. Tente acompanhar as notas enquanto isso acontece é impossível. O que funciona melhor é ler o capítulo inteiro de uma vez, sem parar, e só depois consultar o anotação para entender o que perdeu.

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Outra técnica que funcione foi dividir o livro em blocos por período do dia. Manhã, tarde e noite. Bloom funciona como um fuso horário interno. As pessoas pensam que é complicado, mas é só uma bússola. Sexta-feira, 16 de junho. O livro começa antes do nascer do sol e termina tarde da noite. Seguindo esse ritmo, a sensação de tempo confuso desaparece.

O problema com o episódio "Circe"

Este é o capítulo mais difícil do livro, senão o mais difícil já escrito em inglês. Joyce transforma Dublin num palco de pesadelo. Todos os personagens entram num prostíbulo e suas consciências se materializam como fantasmas, demônios, figuras bíblicas. A escrita é pura dramaturgia. Diálogos sem narrações. Palavras aparecem em caixas, em diferentes tamanhos, cores imaginárias. Já li três vezes o "Circe" e nunca consegui lê-lo inteiro sem sentir que estava sendo atropelado. A solução prática que encontrei foi: ler em partes. Não existe obrigação de engolir o capítulo de uma vez. Eu divido em cenas. A cena de Bloom julgando o Padre Barnabas. A cena com os cadáveres que falam. A cena final com Milo e a vela. Cada seção é uma unidade independente. Juntas, formam um caos deliberado.

Limitações reais que ninguém avisa

Ulysses não funciona para todo mundo. Se você lê por obrigação acadêmica e não tem paciência para perder trinta páginas em Referências que você não vai usar, vá de Finnegans Wake direto — brinca, mas a verdade é que Finnegans é pior. O problema é outro: Ulysses exige contexto cultural que o leitor fora da Europa pode não ter. Piadas sobre política irlandesa de 1904. Referências a escritores como Swift, Shakespeare, Yeats. Nome de cervejas que não existem mais. Quando Joyce escreve sobre Paddy Dignam enterrado, ele está brincando com lendas locais de Dublin. Sem isso, a cena vira apenas uma conversa boba entre dois homens no cemitério. Isso não significa que o livro seja inacessível. Significa que você vai precisar de um companheiro de leitura. O "Ulysses Annotated" é a opção padrão. Mas existem alternativas, como o guia de Hans Walter Gabler ou até comunidades online onde as pessoas debatem capítulo por capítulo. O importante é não tentar fazer tudo sozinho.

Outro ponto que muitos ignoram: a tradução para português é péssima em muitos trechos. A versão da Companhia das Letras tem erros de interpretação em passagens-chave. A versão da Editora 34 também tem problemas sérios, especialmente nos diálogos mais experimentalistas. Se você lê em português, considere ter ao menos uma cópia em inglês ao lado para conferir. Não é ideal, mas é o que temos disponível no mercado brasileiro. No fim das contas, Ulysses é um livro que recompensa quem insiste, mas nunca será um livro que você lê duas vezes seguidas com o mesmo efeito. A primeira leitura é sobre sobrevivência. A segunda é sobre descoberta. E a terceira talvez seja sobre algo totalmente diferente. Eu estou na segunda. A terceira ainda vai acontecer, se Deus quiser.