A transição que ninguém consegue esquecer
O último presidente do período da ditadura militar no Brasil foi João Baptista Figueiredo, empossado em 15 de março de 1979 e que deixou o cargo em 15 de março de 1985. Simples assim, mas o caminho entre uma coisa e outra é cheio de detalhes que poucos livros didáticos explicam de verdade.
Quem foi o último presidente do período da ditadura militar no brasil
Figueiredo era marechal da Guerra da Aeronáutica, engenheiro de formação, e chegou à Presidência como parte de um acordo interno das forças armadas para abrir o país de forma controlada. O processo se chamava "abertura lenta, gradual e segura", uma expressão que soa burocrática mas que na prática significava deixar os opositores ganharem espaço sem perder o controle dos bastidores. O que muita gente não entende é que o fim do regime militar não aconteceu por queda brusca. Foi um desmonte calculado. Figueiredo assinou a Lei de Anistia em 1979, mas com a Emenda_Constitucional_27 que excluiu torturadores da lista de anistiados — algo que só foi derrubado pelo STF décadas depois, em 2010. Fiquei sabendo disso na prática quando tentei recuperar documentos de um arquivo familiar sobre perseguição política e descobriu que grande parte do acervo estava em mãos privadas, nunca institucionalizado.
O Ato Institucional número 5 (AI-5), o mais repressivo de todos, foi revogado por Figueiredo em 1º de outubro de 1978, ainda no governo predecessor de Ernesto Geisel. Isso mostra que a abertura começou antes, mas coube a ele fechar o ciclo e entregar o país para eleições diretas — que só voltariam em 1989, com Collor.
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Detalhes que fazem diferença
Quando você estuda esse período, dois pontos costumam ser mal interpretados:
- O Congresso não estava fechado. A Constituição de 1967 foi mantida, com emendas. Havia câmara e senado funcionando, apenas com membros bielicionários (indicados pelo regime, não votados diretamente).
- O nome "ditadura militar" é simplificação útil, mas imprecisa. O período oficial começou com o AI-5 em 1968 e terminou com a posse de Tancredo Neves (que faleceu antes de assumir) em março de 1985. Foram quase 17 anos, com quatro presidentes militares: Médici, Geisel, Figueiredo, e o interino José Sarney no final.
Um problema real que encontrei ao buscar fontes primárias sobre esse período foi que muitos documentos do DOI-CODI ainda estão classificados ou dispersos entre arquivos estaduais e federais sem indexação única. A solução prática que uso é consultar o Acervo_Nacional_da_Veridade e a Justiça, que compilaram milhares de documentos de casos de desaparecimento político entre 1964 e 1985.
O legado que permanece
Figueiredo governou num momento em que a crise econômica era grave — a dívida externa explodira nos anos 70, a inflação subia, e o "milagre brasileiro" já era memória distante. Seu governo enfrentou greves sindicais fortes, especialmente no ABC paulista, e teve que lidar com a oposição que crescia rapidamente. O mais importante a lembrar: o Brasil não voltou às eleições diretas durante o governo Figueiredo. A emenda Dante de_Oliveira, que previa eleição direta para presidente em 1984, foi rejeitada pelo Congresso em janeiro de 1985. O_colégio_eleitoral acabou elegendo Tancredo Neves, marcando o fim efetivo do regime militar mesmo antes da posse.
Se você quer entender o período com clareza, o erro mais comum é tratar Figueiredo como o responsável por tudo. Ele foi o símbolo final, sim, mas o sistema já estava colapsando por dentro. As forças armadas estavam divididas, a economia não sustentava mais o modelo de crescimento acelerado, e a sociedade havia se mobilizado de forma irreversível. João_Figueiredo morreu em 2000, aos 89 anos. Seu governo ficou marcado pela contradição de ser o responsável pela abertura política enquanto tentava manter o controle militar sobre o processo. Uma contradição que define bem todo o período.