Como montar sua coleção monteiro lobato sem perder dinheiro
Achei que fosse fácil reunir os livros do Monteiro Lobato quando decidi começar. Engano meu. O mercado tem edições espalhadas por décadas, com capas diferentes, traduzidas de formas distintas e algumas até com conteúdo cortado sem aviso. Se você quer fazer uma coleção decente, precisa saber o que está comprando antes de abrir o cartão. Primeiro, vamos estabelecer o que realmente compõe a coleção completa. Monteiro Lobato escreveu cerca de 23 livros entre 1920 e 1947. Os principais títulos que formam o núcleo da série são:
- Visconde de Seropédica (1920)
- O Saci (1921)
- Narrativa do Sertão (1925)
- Urupês (1918)
- Casmurro do Bom Senso (1919)
- A Menina do Nariz Arrebitado (1920)
- O Picapau Amarelo (1920)
- Reinações de Narizinho (1931)
- Caçadas de Pedrinho (1933)
- O Rei Noel e Other Poems (1934)
- O Galo Encantado (1935)
- Sitiio do Picapau Amarelo (1935)
- Memórias do Escrivão Isidoro (1938)
- A Chave do Tamanho (1942)
- O Pó de Pirlimpimpim (1940)
- A Bolha de Sapatos (1940)
- O Minotauro (1943)
- A Key in the Door (1944)
- A Hora e VeZ de Visconde (1946)
- O Presidente Negro (1926)
- Emília no Egito (1944)
- A Princesa e os Porquinhos (1946)
- O Poço Encantado (1949, póstumo)
Muita gente pensa que basta comprar a edição da Editora Companhia das Letras ou da Brasiliense e pronto. Problema é que existem mais de 40 edições diferentes publicadas no Brasil entre 1930 e 2024. Algumas cortam capítulos. Outras alteram o texto original. A edição de 1954 da Globo, por exemplo, removeu trechos considerados impróprios na época e ninguém avisa no catálogo. Minha primeira compra errada foi um exemplar de Emília no Egito da editora FTD dos anos 90.Quando li, percebi que faltava metade do capítulo sobre a descoberta do túnel secreto. Troquei por uma edição facsimilar da Nova Aguilar de 1978 e o problema foi resolvido.
Versões recomendadas para cada título
Para quem leva isso a sério, existem algumas edições que são consistentemente melhores que outras. A Editora Companhia das Letras publicou uma coleção completa entre 2008 e 2012 com textos cuidadosamente revisados. Cada volume tem introdução e notas sobre as alterações feitas ao longo das décadas. Vale o preço mais alto porque pelo menos você sabe o que está lendo. Já a coleção da Editora Globo dos anos 80 e 90 é acessível mas péssima do ponto de vista textual. O revisor cortou mais de 30% do conteúdo original em alguns livros e mudou nomes de personagens. Eu vi uma edição de Reinações de Narizinho onde o Visconde de Seropédica virava simplesmente Visconde. Sem explicação.
Se você quer facsímiles fiéis, a edição da UNESP de 2017 revisa os textos originais das primeiras edições. É mais trabalhosa, mas para quem pesquisa ou ensina, faz diferença. A Biblioteca Nacional também tem digitalizações gratuitas das primeiras edições, mas a qualidade das imagens varia muito.
Onde comprar e como evitar golpe
Amazon e Mercado Livre têm tudo e nada ao mesmo tempo. O risco principal é comprar edições pirateadas ou reimpressões sem revisão. Um jeito prático de identificar é olhar o ISBN. Ediçòes legítimas brasileiras têm ISBN começando com 978-85. Se o número estiver faltando ou parecer genérico, provavelmente é reprint chinês. Sebos online como Estante Virtual e ShoppBac são melhores para edições mais antigas. Mas exige paciência. Às vezes você encontra o livro perfeito, mas o vendedor não especifica qual edição é. Sempre peça foto da página de créditos antes de comprar. Se ele se recusar, desista. Já perdi dinheiro com vendedor que mandou foto do livro fechado e dentro tinha uma edição de 1962 com texto truncado.
Feiras do livro usado em São Paulo e Rio de Janeiro também rendem achados. A Feira de Booktalk na capital paulista acontece todo mês e tem banca dedicada a literatura brasileira. Meu melhor encontro foi um exemplar de A Chave do Tamanho de 1942 por 25 reais. Claramente restaurado, mas completo.
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Organização prática
Montar a coleção física exige espaço. Um set completo das edições de bolso costuma ocupar uma prateleira de 1,5 metro. Se forem edições de capa dura maiores, dobra o tamanho. Eu recomendo começar pelos cinco títulos fundadores e depois expandir. A ordem cronológica ajuda a acompanhar a evolução do estilo do autor, mas não é obrigatória. Um problema recorrente é que alguns títulos estão esgotados há décadas. A Chave do Tamanho, por exemplo, tem edição atualizada mas as primeiras versões estão quase impossíveis de achar novas. O preço sobe rápido. Quem espera promoção nunca acha. Compro pelo preço justo quando aparece e guardo para revender quando precisar de um título específico.
Digital versus físico
O projeto Domínio Público da UNESP disponibiliza versão digital gratuita de muitos livros. A qualidade varia, mas serve como leitura rápida. Para estudo, o físico ainda é superior. Notas de rodapé, ilustrações originais e a disposição do texto fazem diferença em textos como O Saci, que tem linguagem deliberadamente arcaica em partes. A desvantagem do digital é que versões piratas circulam muito. Site como SabeTudo e outros repositórios duvidosos oferecem PDFs com marca d'água e caracteres corrompidos. Não vale o risco. A menos que o leitor tenha urgência, o preço de uma cópia física barata é menor que o tempo gasto corrigindo um PDF defeituoso.
Questões éticas e de conteúdo
Há controvérsia sobre certos trechos dos livros. Racismo velado, representações problemáticas de personagens indígenas e comentários sobre classes sociais aparecem em textos dos anos 20. Recomenda-se leitura crítica acompanhada, especialmente para público mais jovem. Nenhuma edição atual remove essas passagens integralmente, mas algumas incluem notas explicativas nas margens. A escolha da edição certa pode suavizar ou destacar esses aspectos. A da Companhia das Letras mantém o texto original com nota de rodapé. A da FTD dos anos 90 cortava trechos sem avisar, o que é pior do que manter o problema e discutilo abertamente.
Custo real da coleção completa
Se você for comprar tudo em edição nova da Companhia das Letras, gasta entre 800 e 1200 reais. Usando sebos e oportunidades, consigo montar a base com 300 a 400 reais, mas leva tempo. O custo-benefício depende do objetivo. Leitura casual não justifica investimento alto. Pesquisa acadêmica sim. Uma dica prática: compre os títulos mais raros primeiro, porque a disponibilidadecai com o tempo. Os clássicos como Reinações e Caçadas de Pedrinho estão sempre disponíveis. O difícil é encontrar O Presidente Negro em boa condição.
Manutenção dos exemplares
Papel dos anos 30 a 50 é ácido e amarela rápido. Armazene em local seco, longe de luz direta. Capas de tecido tendem a descascar. Use capas protetoras de polipropileno se for manusear com frequência. Não exponha a livros antigos a umidade extrema. Já vi exemplares inteiros colados por mofo em caixa mal vedada. A coleção Monteiro Lobato funciona como investimento Cultural e histórico. As edições mais antigas valorizam. Um exemplar de A Menina do Nariz Arrebitado de 1920 pode valer mais que o preço de um carro popular usado. O mercado é pequeno, mas existe. Feiras especializadas movimentam títulos rareados.
O maior erro que vejo é comprar sem verificar a edição. A capa atrai, mas o conteúdo dentro pode ser uma traição. Sempre checar ISBN, ano de publicação e editora antes de finalizar a compra. Se o anúncio não tiver essas informações, é sinal vermelho. Boa parte dos vendedores amadores não sabe diferenciar edição e reimpressão. Eles vendem o que têm e torcem para dar certo. Você não precisa ser essa pessoa.