Entendendo o futuro do indicativo: faram ou farão?
O verbo fazer tem uma das conjugações mais problemáticas do português do Brasil, especialmente na terceira pessoa do plural do futuro do subjuntivo e do presente do indicativo. Muita gente escreve ou fala "eles faram" quando o correto é "eles farão". A diferença não é só ortográfica. Ela muda o sentido da frase inteira.
faram ou farao: a confusão mais comum
Se você já reparou que praticamente todo mundo diz "faram" no dia a dia, isso não significa que está certo. O correto, na norma culta e em textos formais, é "farão". A sílaba final leva acento circunflexo porque é closed tonic. No português brasileiro coloquial, o ditongo nasal /-ão/ frequentemente se reduz a /-am/ em contextos informais de fala, mas na escrita isso não se sustenta. Vou mostrar como funciona a conjugação completa e depois explicar por que essa confusão aparece tão seguido.
A conjugação do verbo fazer no futuro
Presente do indicativo: eu faço tu fazes ele/ela você faz nós fazemos vós fazeis eles/elas vocês fazem
Futuro do presente do indicativo: eu farei tu farás ele/ela você fará nós faremos vós fareis eles/elas vocês farão
Futuro do subjuntivo: se eu fizer se tu fizeres se ele/ela você fizer se nós fizermos se vós fizerdes se eles/elas vocês forem
Observe que o futuro do subjuntivo muda completamente para "forem", não "farem". Essa irregularidade é um dos motivos pelos quais os falantes nativos têm tanta dificuldade. O verbo fazer é supletivo em grande parte de suas formas, o que significa que ele pega raízes diferentes de verbos distintos ao longo da conjugação.
Por que as pessoas escrevem "faram"?
Existem duas causas principais. A primeira é a influência do presente do indicativo. Como "eles fazem" termina em -em e "nós fazemos" termina em -emos, o cérebro tende a padronizar e criar uma forma regular que não existe: "faram". A segunda causa é a fonética. Na pronúncia brasileira informal, o som final de "farão" (com ditongo nasal) muitas vezes se aproxima de "faram" na fala rápida. Quando a pessoa pensa em escrever algo e baseia na memória auditiva, a grafia incorreta aparece sozinha. Eu passei anos revisando textos técnicos e jurídicos e vi "quando eles faram disponibles" em orçamentos da construção civil. "Faram disponibles" não existe em nenhuma variante do português. O certo seria "estarão disponíveis" ou "farão disponibili", mas mesmo isso soa errado. O problema é que a confusão se espalhou tanto que muitos sistemas de correção ortográfica automaticamente aceitam "faram" sem reclamar.
Como saber quando usar cada forma
A regra prática mais simples é: qualquer vez que o sujeito for plural e o tempo verbal for futuro, use "farão". Nunca "faram". Se o tempo for subjuntivo, use "forem" (para eles/elas/vocês). O subjuntivo aparece em orações condicionais ou dubitativas: "Se eles forem à reunião, a proposta será aprovada." — correto
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"Se eles forem à reunião, a proposta será aprovada." — correto mas soa redundante Já o futuro do indicativo aparece em afirmações diretas sobre o que vai acontecer:
"Eles farão o trabalho amanhã." Não confundir com o futuro do pretérito (condicional), que em português padrão usa a mesma forma "fariam" para todas as pessoas do plural, mas isso é outro assunto.
O caso específico que me marcou
Em 2019, estava revisando um contrato de prestação de serviços onde o cliente havia escrito repetidamente "as partes faram responsáveis pelo cumprimento das cláusulas". A forma "faram" apareceu dezessete vezes no documento. O contrato tinha sido elaborado por um estagiário que nunca tinha tido uma aula formal de conjugação verbal. Eu tinha duas opções: corrigir tudo manualmente ou reescrever as cláusulas usando estruturas mais simples. A solução prática foi substituir "faram" por "serão" em todas as ocorrências. O texto ficou muito mais claro e eliminou a ambiguidade. "As partes serão responsáveis pelo cumprimento das cláusulas" soa muito mais natural em português jurídico do que "as partes farão responsáveis". Eu recomendo essa abordagem sempre que a estrutura com "fazer" ficar awkward no contexto.
Pegadinhas que ninguém conta
A primeira pegadinha é que "farão" também pode ser o pronome relativo "o qual" no plural, com acento diferencial. "Os contratos que vocês assinaram, farão parte do arquivo." Aqui, "farão" é um pronome, não um verbo. O acento circunflexo indica a diferença entre o verbo futuro ("eles farão") e o pronome ("o qual, farão"). É raro, mas aparece em textos formais e pode causar confusão adicional. A segunda pegadinha é a forma "farem" no futuro do subjuntivo. Muita gente acha que "se eles fizerem" está errado e deveria ser "se eles farem". Ambos estão errados. O futuro do subjuntivo de fazer para a terceira pessoa do plural é "forem". A forma "farem" não existe em nenhuma norma do português padrão.
Alternativas práticas quando tudo fica confuso
Se você estiver inseguro na hora de escrever, existem construções alternativas que evitam o problema completamente. Em vez de "eles farão", você pode usar: - "Eles irão" + infinitivo (ex: "eles irão fazer")
- "Eles vão" + infinitivo (ex: "eles vão fazer") - Trocar o verbo fazer por sinônimos adequados (ex: "produzir", "realizar", "executar", "concluir")
Essas alternativas são especialmente úteis em textos técnicos e jurídicos, onde a clareza prevalece sobre a elegância estilística. Eu costumo usar "irão realizar" ou "vão executar" quando sinto que a forma verbal pura está gerando ambiguidade.
Verificação rápida
Uma ferramenta útil que eu uso é o método de substituição. Se você puder trocar "faram" por "farão" na frase e o sentido se manter intacto, a correção está feita. Se a frase ficar estranha, provavelmente o problema é estrutural e não apenas ortográfico — nesse caso, reformule a oração inteira. O Download de listas de conjugação verbal não é necessário se você já internalizou a lógica: o verbo fazer é irregular, o futuro do indicativo pede "farão", o futuro do subjuntivo pede "forem", e qualquer variação que apareça fora dessas duas formas deve ser tratada como erro. Isso cobre praticamente todos os casos que você vai encontrar na prática.
Quando a regra não se aplica
Em português de Portugal, a situação é ligeiramente diferente. A pronúncia preserva melhor o som original de "farão", o que reduz a taxa de erro na escrita. Falantes brasileiros, por outro lado, tendem a cometer o erro com mais frequência por causa da redução vocálica característica do sotaque. Se você está trabalhando com documentação bilíngue ou revisando textos que circulam entre Brasil e Portugal, essa diferença de pronúncia pode explicar por que alguns revisores não percebem o erro imediatamente. Não há exceções legítimas para "faram" na norma padrão. Qualquer aparecimento dessa forma em texto formal deve ser corrigido para "farão" ou reescrito com uma alternativa mais adequada.