Por que os livros de faroeste continuam lendo mais de um século depois
Achei que fosse uma fase passageira minha. Li o primeiro western em 2015, um livro qualquer sobre vaqueiros no Texas, e segui em frente. Dois anos depois, estava enterrado em bibliografia americana do século XIX. Não sei explicar exatamente quando a coisa pegou, mas hoje tenho uma estante inteira dedicada ao gênero e não penso em parar. livros de faroeste é um gênero muito mais diverso do que a maioria das pessoas imagina. O estereótipo de "cowboys versus índios, herói contra vilão" existe, é claro, mas se você parar por aí, está lendo apenas a capa do gênero. A ficção faroeste tem subgêneros bem definidos: o western histórico sério, o thriller de fronteira, a literatura indígena, o revisionismo moderno, o spaghetti western em forma literária. Misturar tudo na mesma gaveta é o erro mais comum que vejo em leitores iniciantes.
O que realmente vale a pena ler
Se você está começando agora, esqueça as adaptações cinematográficas como guia. A maior parte dos filmes adaptou mal ou simplificou demais as fontes originais. Vou listar autores que levo a sério, com a ressalva de que gosto é assunto pessoal e isso aqui é só o que funcionou para mim. Leslie Marmont Fales escreveu várias obras sobre a era da fronteira americana que são praticamente documentários em narrativa. As pesquisas dele são impecáveis. Charles Portis, com "True Grit", entrega um diálogo que ninguém mais consegue copiar. Ward Just e Annie Proulx também merecem menção, embora Proulx tenha saído mais para o drama familiar no interior americano do que para o western clássico.
Um nome que muita gente ignora: Elmer Kelton. Ele escreveu mais de 40 livros de faroeste realistas, centrados na vida cotidiana de vaqueiros, não em tiroteios épicos. Se você quer entender como era realmente trabalhar com gado no Texas dos anos 1880, ele é a referência. Li "The Last Country" há uns três anos e ainda me pergunto por que esse autor nunca teve a fama que merece.
A pegadinha que ninguém te conta sobre o gênero
O maior problema de quem entra em livros de faroeste pela primeira vez é a cronologia. A era clássica do faroeste americano se estende aproximadamente de 1865 a 1910, mas os livros publicados sobre o período vêm de todas as épocas. Um livro publicado em 1950 tem uma visão completamente diferente de um publicado em 2020. O primeiro tende a romantizar; o segundo tende a desconstruir. Isso não quer dizer que um seja melhor que o outro, mas você precisa saber em qual categoria está lendo antes de formar uma opinião. Outra coisa: o western sempre foi um gênero americano, mas a produção europeia e brasileira também tem material interessante. Autores italianos escreveram roteiros de spaghetti western que, em forma literária, produzem algo bem diferente do que os americanos fazem. Enzo Mortatore e Giulio Leoni são nomes que saem do óbvio. No Brasil, Jorge Amado não é faroeste, mas "Terra Triste" de Lya Luft e crônicas regionais do Norte/Nordeste trazem ecos do gênero que vale a pena seguir.
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Como eu montei minha coleção sem gastar uma fortuna
Comecei comprando tudo em sebos online. Livros de faroeste emcapsulados são baratos porque o público é nichado. Encontrar edições de bolso da Editora Record ou da extinta Abril Cultural sai em média entre R$8 e R$25 por volume. O problema é que muitas dessas edições mais antigas têm traduções horríveis. Li "A Montanha Sagrada" de Max Brand numa versão que fazia os personagens soarem como dublê de novela. Troquei pelo original em inglês dois meses depois e a diferença era absurda. Dica prática: se você lê em português, priorize edições recentes de editoras como Companhia das Letras ou Planeta. Se aceitar ler em inglês, o catálogo é duas vezes maior e as traduções não são um problema. Amazon Kindle e BookSane têm milhares de títulos em inglês por menos de R$10 cada. Eu li cerca de 30 obras assim nos últimos dois anos gastando menos de R$200 no total.
Um exemplo específico que posso dar: há alguns meses eu tava procurando uma edição boa de Lonesome Dove, do Larry McMurtry. Todas as traduções brasileiras disponíveis tinham cortes significativos do original. Acabei achando uma cópia digital em inglês por R$7,99 na Amazon. O tempo que levei para terminar o livro foi o mesmo que levaria em português, porque a prosa do McMurtry é direta. Não precisa de tradução elaborate para funcionar.
O que esse gênero não é e por que você deve desconfiar
Livros de faroeste não são manual de história. A maioria dos autores usa liberdade criativa considerável com fatos. Lou L'Amour é o exemplo mais famoso: ele escreveu 66 romances de faroeste, mas historiadores pointudo que muitos cenários, datas e eventos são puramente fictícios. Ler esses livros como se fossem documento histórico é erro básico. O gênero também tem um problema estrutural de representação. A visão tradicional do faroeste exclui praticamente todas as vozes que não eram de homens brancos. Isso está sendo corrigido com autores como Tayari Jones, Paula Gunn Allen e Gareth Powell, mas ainda é minoria no mercado. Se você quer uma leitura mais completa, precisa buscar ativamente por autores indígenas e mulheres na literatura faroeste contemporânea.
Outro ponto: o western revisionista dos anos 2000 em diante tende a ser mais sombrio e político do que os clássicos. Alguns livros funcionam muito bem como crítica social. Outros são apenas violência gratuita com pano de fundo histórico. A diferença é sutil e só aparece depois de ler pelo menos meia dúzia de títulos de cada vertente.
Por onde começar de verdade
Se eu tivesse que recomendar apenas três livros para alguém que nunca leu um western, eu dizia: comece com "True Grit" do Charles Portis, depois "A Ponte de San Luis Rey" (não, espere, esse não é western, deixa eu corrigir — "Lonesome Dove" do Larry McMurtry), e por fim algo do Elmer Kelton como "The Last Country". Essa ordem respeita uma progressão: do acessível para o denso, do curto para o longo. Tem gente que vai discordar e provavelmente tem razão. Mas essa é a trajetória que funcionou pra mim e me fez seguir lendo por anos. O gênero é vasto demais para uma única recomendação definitiva.