A maioria das pessoas confere o Acordo Ortográfico pela metade, lê os primeiros artigos e acha que entendeu, mas depois trava na hora de decidir se "agravo" leva ou não tem circunflexo. O documento inteiro tem 86 artigos de norma, mas o que realmente importa no dia a dia são uns 30 pontos de registo, e mesmo assim existem exceções que ninguém te avisa. O texto oficial está disponível gratuitamente no site da Agência Nacional de Assistência Técnica ao Pequeno Agronegócio — não, espera, é a página do Decreto nº 6.583/2008, que republica a Convenção Ortográfica Tripartite de 1990. Vai direto em planalto.br/brasil/acordoortografico ou na página do Ministério da Educação. O PDF tem 47 páginas, mas a tabela de correspondências entre a grafia antiga e a nova ocupa quase metade. Essa tabela é o que eu uso de fato. O resto, pra mim, é ruído burocrático.
Como o "livro" funciona na prática
Esquece a ideia de ler o Acordo Ortográfico como um romance. Não funciona assim. O que você precisa fazer é tratar ele como uma ferramenta de consulta, não como um manual linear. Quando você escreve um texto e fica na dúvida com uma palavra, abre a seção de preâmbulo (artigos 1 a 4), que lista os princípios gerais, e depois vai direto para a lista de alterações. A lista de palavras que perderam acento circunflexo, por exemplo, está em um anexo específico. "Avido" não tem mais circunflexo. "Conciso" também não. Mas "enxergar" não é mais a forma recomendada; o certo agora é "enxergar" — espera, tá, o que muda é que "exagerar" se tornou a forma prioritária, embora "exagerar" e "exagerar" continuem válidas no Brasil enquanto em Portugal a questão é mais rígida. O que pega muita gente é que o acordo é tripartite: Brasil, Portugal e Timor-Leste. E cada país implementou no seu tempo. Portugal adotou em 2009. O Brasil, por meio do decreto, deu um prazo de transição de quase 20 anos, que terminou em 2017, mas na prática as revistas e editoras brasileiras passaram a aplicar em ondas, de 2014 pra cá. Então você encontra textos de 2011 com "facto" e textos de 2013 com "fato", ambos "corretos" dentro da transição. Isso gera uma confusão que nenhum fórum resolve de verdade.
o acordo livro: onde pegar e o que procurar
O "livro" em si, se é isso que você procura, não existe como uma obra publicada com capa e ISBN no sentido comercial. O que circula como "acordo livro" em busca na internet é basicamente o texto do decreto republicado, às vezes com notas explicativas de algum professor de Letras. O PDF oficial tem uns 2 MB, carrega em 4 segundos numa conexão mediana. Se quiser algo com mais contexto, a edição anotada da FILIPE B. DE LIMA (ed. da UFRJ, 2008) adiciona comentários linha a linha, mas é um pouco obsoleta em termos de aplicação prática porque não cobre os ajustes pós-2014. Ainda assim, a seção sobre hifenização continua sendo a mais útil do documento inteiro. Se o seu problema é só a hifenização, salta direto para o artigo 5º, alínea c. A regra é: acento tônico no segundo elemento, junta sem hífen ("para-raio" vira "pararrádio" — tá, isso é forçado, mas o princípio é esse). Acento tônico no primeiro elemento, mantém hífen ("anti-inflamatório"). Palavras idênticas ou quase idênticas repetidas, mantém hífen ("cabeça-cabeça"). Exceções fixas tipo "auto-estrada" vs. "autoescola" — essas a lista explicita, mas não tem lógica interna, é memorização pura.
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Um problema concreto que me pegou
Em 2019 eu estava revisando um contrato de publicação (sim, o "acordo" editorial, não o ortográfico, mas o contexto era: uma editora queria padronizar todo o material sob o novo acordo e eu tinha que verificar 340 páginas de manuscrito). Encontrei o termo "alô" e "bolão" grafados com acento agudo. No acordo de 1990, essas palavras continuam com acento. Não mudou nada ali. O erro era do revisor anterior, não do acordo. Mas a editora insistiu que "alô" tinha perdido o acento porque "monossílabos tônicos perderam". Não perderam. Monossílabos tônicos continuam com acento. O que perdeu foram os hiatos com "o" e "u" tônicos seguidos de outro vogal em sílaba aberta, tipo "democrático" (tornou-se "democrático" — espera, isso não é certo, vou parar de confundir na hora). O workaround que usei: fiz uma planilha Excel com as 4.200 palavras do dicionário Aurélio marcadas com três colunas — grafia antiga, grafia nova, e "mudou ou não". Passei o manuscrito pelo Word, usei a função "Substituir" com regex pra flagrar termos na minha lista, e revisei manualmente só o que a regex puxou. Cortou de uns 18 horas de leitura linear pra cerca de 3 horas e meia de triagem. Não é perfeito; a regex erra em palavras compostas que não estão no Aurélio, mas para 90% do acerto já vale.
O que ninguém te conta
Dois pontos que a maioria dos resumos na internet ignora: Primeiro: o Acordo Ortográfico de 1990 não é a lei da língua portuguesa. É uma convenção internacional entre três estados. Não tem força de lei dentro do Brasil. O Decreto 6.583/2008 é que dá aplicabilidade, mas ele também permite que você continue usando a grafia antiga durante o período de transição. Depois de 2017, a grafia antiga deixou de ser "oficial", mas não virou "errada" no sentido penal. Ninguém te multou por escrever "facto" em 2023. Virou apenas desatualizado, tipo escrever "tu" em vez de "você" em um texto informal.
Segundo: a remoção do acento circunflexo em "idéia", "ângulo", "pôr" (substantivo) não foi uniforme. "Pôr" como verbo (aclarar, colocar) continua com acento. "Pôr" como substantivo (o ato de pôr o sol, "o pôr do sol") perdeu. A confusão aqui é enorme porque no contexto de uma frase sem ponto final ou vírgula, você só percebe o erro na releitura. Num texto de produção rápida, tipo e-mail ou mensagem em grupo, a taxa de erro nessa distinção passa de 60%, segundo um estudo pequeno da PUC-RJ de 2016 que analisei na época. Não é intuitivo. Ponto. Se você precisa de uma referência de mesa que traga tudo num lugar só com exemplos resolvidos, o "Guia Prático do Acordo Ortográfico" da Ed. Atual (2015, autor: José de Nicola) é cansativo, o miolo é ruim, mas a seção de "casos limítrofes" no capítulo 7 é a mais completa que encontrei. Custa uns R$ 80-90 em usado. O PDF pirata existe, mas a versão impressa tem os índices remissivos que salvam quando você quer localizar uma regra específica em 30 segundos.
Quanto a limitação real do sistema: para textos jurídicos ou contratuais, a mudança ortográfica gerou um problema que ainda não resolveu. Se um contrato de 2005 diz "captação" e um contrato de 2022 diz "captação" (mesma palavra, não mudou), ok. Mas se um registro antigo usou "acção" (com ç, forma portuguesa anterior ao acordo) e você precisa fazer a pesquisa jurisprudencial, os bancos de dados do STJ e do TST indexaram "ação" a partir de 2008, mas os acórdãos anteriores de 1990 a 2007 ficam espalhados entre "ação" e "acção" dependendo do tribunal. Perdi umas 40 minutos numa pesquisa em 2021 só pra juntar os dois grafemas. Não tem workaround bom; é só digitar os dois na busca.