Obras De Guimaraes Rosa - O MELHOR DE JOAO GUIMARAES ROSA NOVA FRONTEIRA LITERATURA NACIONAL ...
O MELHOR DE JOAO GUIMARAES ROSA NOVA FRONTEIRA LITERATURA NACIONAL ...

Guimarães Rosa é mais difícil do que a literatura diz que é

A primeira coisa que todo mundo tenta fazer quando vai se aproximar das obras de guimaraes rosa é começar por Grande Sertão: Veredas. A maioria não aguenta o livro inteiro. É normal. O texto exige algo específico: disposição para ler devagar e aceitar que o narrador, Riobaldo, vai entrar e sair do assunto principal o tempo todo, como se estivesse conversando com um ouvinte que está do outro lado da mesa, mas que às vezes não responde. Eu já li o Grande Sertão três vezes. A primeira foi na faculdade, em dois meses, com um dicionário ao lado. A segunda, anos depois, sem pressa. A terceira vez foi só para checar uma cena específica sobre o jagunço e o diabo, e percebi que tinha pulado quase metade dos trechos na primeira leitura porque pareciam enrolação. Não era. Era estrutura.

obras de guimaraes rosa: o que realmente existe

A produção dele é pequena em volume, mas densa. São três livros de contos e um romance. Nada mais. A lista básica é essa: Sagarana (1946) — contém "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", provavelmente o conto mais estudado dele. É uma transformação: um cangaceiro violento perde tudo e se converte, sem religião explícita, mas com uma espécie de paz armada. O texto é curto, mas a linguagem já mostra o que vem pela frente.

Primeiras Estórias (1959) — reúne contos como "Urubu-pretinho" e "Maruim". Aqui ele experimenta vozes narrativas mais distintas. Um conto fala de um menino que ouve o mar de um jeito que nenhuma outra obra brasileira faz parecido. Contos de Aprentiz (1960) — reunidos depois, com textos de transição entre os dois períodos. São menos conhecidos, mas importantes para entender a evolução da prosa dele.

Grande Sertão: Veredas (1956) — o livro. Quase mil páginas em edições comuns. Narrativa em primeira pessoa, sem pontuação tradicional em muitos trechos, com neologismos criados pelo próprio autor e uma sintaxe que imita o ritmo da fala sertaneja, mas elevated, literária. Lyrica (póstumo, 1989) — poemas. Pouco lidos, mas mostram que ele também trabalhava com verso.

O problema prático é que as edições são todas diferentes. A Nova Fronteira, a Alfaguara, a Planeta — cada uma tem cortes, notas de rodapé distintas, e às vezes ordens diferentes de capítulos nos Sagarana. Se você for citar algo academicamente, precisa verificar a edição. Eu perdi duas horas num trabalho porque a versão que eu tinha continha um conto que a versão oficial não incluía. Verifique sempre a ISBN.

Como ler sem desistir no capítulo três

A maior armadilha é achar que o Romanceiro da Inconfidência é a porta de entrada. Não é. É poesia, sim, mas em português arcaizante com referências históricas específicas. Você vai travar. Comece por Sagarana. O conto de Augusto Matraga tem cerca de sessenta páginas. Se você conseguir terminar sem abrir o dicionário a cada parágrafo, já está no caminho certo. No Grande Sertão, aceite que os travessões são a pontuação principal. Riobaldo usa eles como se fossem pausas de respiração, e muitas vezes a oração continua do outro lado como se nada tivesse acontecido. Eu costumava marcar com um post-it amarelo cada vez que ele voltava ao assunto do reinado do Diabo. São cerca de doze aparições ao longo do livro. Sem esse rastro, é fácil perder o fio condutor.

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Um detalhe que ninguém ensina: os neologismos dele não são arbitrary. "Desencerrou", "desavergonhamento", "agigantadamente" — ele deriva do português existente seguindo padrões morfológicos reais. Você não precisa decorá-los. Basta perceber que a lógica é consistente e o contexto entrega o sentido. O dicionário só é necessário quando o termo aparece isolado, sem parceiro na frase.

Edição: qual usar e por quê

Para o Grande Sertão, a edição da 4lei com prefácio de Antônio Houaiss é considerada a mais fiel ao manuscrito. A de Marcos Siscón da editora 34 também é sólida. Evite edições de bolso sem notas: você vai passar o livro inteiro sem perceber que perdeu trechos inteiros de explicações que Riobaldo dá sobre o sertão. No caso de Sagarana, a editora Paz & Terra publicou uma versão revisada que inclui textos ausentes das edições originais. Se você quer ter a obra completa, essa é a que vale a pena. Custa mais cara, mas compensa.

Dica prática: baixe sempre a versão em PDF da Biblioteca Nacional se estiver fazendo pesquisa. Os scans são fiéis às páginas impressas e permitem busca por texto. Leva uns minutos a mais para navegar, mas evita a frustração de procurar uma passagem e não encontrar porque a versão digital que baixou foiOCR mal feita.

O erro mais comum entre iniciantes

Muita gente acha que Guimarães Rosa é difícil porque usa palavras difíceis. Não é. Ele é difícil porque constrói ideias complexas dentro de uma sintaxe deliberadamente oral. A diferença é sutil, mas muda tudo. Se você tentar ler como se fosse prosa tradicional, vai sentir que o texto trava. A solução é ler em voz alta. Mesmo que seja sussurrando. O ritmo da fala sertaneja, com suas repetições e encadeamentos, só aparece quando o som do texto entra no ouvido. Eu fiz isso com o conto "Mayombe". Trinta e oito páginas. Li em voz alta pela primeira vez numa tarde, parada no meio da sala. Quando cheguei no final, percebi que tinha entendido algo que na leitura silenciosa simplesmente escapava: o narrador está construindo uma memória, não relatando fatos. Cada repetição é um sinal de que a lembrança está sendo recomposta, não lembrada. Isso não se descobre lendo rapidamente.

Quando a obra dele não funciona

Honestamente, se o seu objetivo é entretenimento leve, Guimarães Rosa não é o autor. O texto exige investimento. E há limites: alguns trechos do Grande Sertão, especialmente as longas digressões sobre o conceito de seresteiro e as descrições do mato, são intencionalmente densos. Não há como tornar isso mais fácil. Se você precisa de uma introdução mais acessível, pode começar com o conto "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" isoladamente. Ele sozinho funciona bem como amostra do que o autor faz de melhor. Outro ponto: as obras de guimaraes rosa ganharam muitas adaptações, mas a maioria perde o núcleo linguístico. Filmes e peças que tentam transpor o Grande Sertão para outra linguagem acabam simplificando demais a questão do narrador. Riobaldo não é um personagem tradicional. Ele é uma consciência que se escuta enquanto fala. Isso é difícil de traduzir para qualquer outro meio.

Se o interesse for acadêmico, recomendo começar pela tese de Maria Luiza T. Amaral sobre a prosódia roseira. Não é leitura trivial, mas responde perguntas que muitos artigos populares deixam pendentes. O texto dela mostra que a repetição em Guimarães Rosa não é vício de estilo — é estratégia narrativa. Resumindo: leia devagar. Marque os travessões. Não use edições baratas. E se travar, releia em voz alta. O texto responde a quem o trata com atenção.