O expressionismo não começou num lugar só
Muita gente acha que o expressionismo surgiu de uma vez, num ano específico, como se tivessem publicado um manifesto e tudo mais. Não foi assim. O movimento apareceu de forma fragmentada, principalmente na Alemanha e na Áustria, entre 1905 e 1913, e cada grupo tinha sua própria cronologia.
Expressionismo quando surgiu
A resposta mais direta é: o expressionismo como movimento organizado surgiu por volta de 1905, com a fundação do grupo Die Brücke (A Ponte) em Dresden, por quatro estudantes de arquitetura: Ernst Ludwig Kirchner, Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff. Poucos anos depois, em 1911, Munich viu o nascimento do Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), liderado por Wassily Kandinsky e Franz Marc. O termo em si já era usado antes disso. O pintor francês Henri Rousseau foi chamado de "expressionniste" por críticos franceses em 1901, mas ninguém naquele contexto associava a palavra ao movimento germânico que se formaria nos anos seguintes. A palavra "expressionismo" só começou a ser usada regularmente em publicações alemãs por volta de 1910, e ganhou destaque quando Alfred Walter Heymel publicou a antologia "Expressionismus" em 1918.
O que realmente define o expressionismo, na prática, é uma rejeição à representação fiel da realidade. Os artistas não queriam pintar o mundo como ele era, mas como eles sentiam que ele era. Cores violentas, formas distorcidas, pinceladas agressivas. Isso soa bonito numa sala de aula, mas quando você começa a estudar as obras de perto, percebe que a coisa é muito mais técnica do que parecida. Eu passei dias analisando as gravuras em madeira de Kirchner para um trabalho de conservação. A diferença entre uma xilogravura expressionista original e uma reprodução moderna é brutal se você souber onde olhar. As bordas das linhas nas originais têm irregularidades microscópicas causadas pelo desgaste natural da matriz de madeira durante a impressão. Cópias feitas com técnicas digitais modernas são geometricamente perfeitas demais. Esse é um dos primeiros sinais que usei para identificar reproduções sendo vendidas como autênticas em leilões pequenos. É um problema real no mercado de arte acessível.
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Outro detalhe que poucos mencionam: o expressionismo não era apenas pintura. Havia teatro expressionista, cinema expressionista, arquitetura, poesia. O cinema alemão dos anos 1920, com filmes como "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920) e "Nosferatu" (1922), é talvez a manifestação mais conhecida internacionalmente. Mas o teatro expressionista, com suas encenações distorcidas e atores que quase gritavam nos palcos, teve um impacto enorme na época e depois foi esquecido. Sets com ângulos impossíveis, máscaras, iluminação artificial e dura. Nada a ver com o realismo que dominava o teatro europeu até então. Um erro comum de quem estuda o movimento é tratar Die Brücke e Der Blaue Reiter como se fossem a mesma coisa. Eles tinham objetivos semelhantes — romper com a tradição — mas filosofias completamente diferentes. Die Brücke era mais visceral, mais ligada à natureza e ao primitivismo. Der Blaue Reiter era mais espiritual, mais abstrato, mais interessado na relação entre cor e música. Kirchner não teria nada a ver com Kandinsky, apesar de ambos serem "expressionistas".
O expressionismo também colapsou mais rápido do que a maioria dos movimentos artísticos importantes. A ascensão do nazismo nos anos 1930 destruiu praticamente tudo. Kunstler verfalled ("Arte degenerada") foi o título da exposição propagandística de 1937 que ridicularizou e confiscou milhares de obras expressionistas. Muitos artistas foram proibidos de trabalhar, outros fugiram. Die Brücke se dissolveu oficialmente em 1913, antes mesmo da Primeira Guerra Mundial terminar, porque as tensões entre os membros já eram insuportáveis. Kirchner entrou em colapso psíquico em 1915 após se oferecer voluntariamente para o serviço de combate e ser rejeitado por questões de saúde. Se você quer entender o expressionismo de verdade, não basta olhar reproduções em livros. Vá até um museu que tenha obras originais. A Neue Nationalgalerie em Berlim, o Museo Nazionale di Arte Contemporanea em Roma, a Tate Modern em Londres. A textura das pinceladas, a espessura da tinta, a violência física da aplicação — nada disso aparece em imagens digitais. Uma tela de Kandinsky de 1913 pode parecer bonita na tela do seu celular, mas na vida real ela parece um soco na cara.
Também vale a pena ler os textos teóricos da época. O almanaque do Der Blaue Reiter, publicado em 1912, continha ensaios sobre a relação entre arte e música, cor e espiritualidade. Os escritos de August Stramm sobre poesia expressionista mostram como o movimento tentava destruir a gramática tradicional para expressar emoções puras. É denso, às vezes ilegível, mas dá uma ideia do que esses artistas realmente pensavam. O expressionismo deixou um legado enorme. Influenciou o expressionismo abstrato americano dos anos 1940, com Pollock e De Kooning. Influenciou o neexpressionismo dos anos 1980, com Baselitz e Kiefer. Mas o movimento em si foi essencialmente alemão, essencialmente urbano, essencialmente desesperado. Nasceu de uma sociedade que sentia que estava prestes a explodir — e explodiu, literalmente, com a Primeira Guerra Mundial em 1914.